|
:: ACIDENTES COM CRIANÇAS MAIS VALE PREVENIR Artigo da revista Farmácia Saúde do número 67 de Abril de 2002 Os acidentes na infância são muito comuns. E a própria casa um dos locais mais perigosos para as crianças porque, na descoberta do seu mundo, deitam a mão a tudo. A curiosidade pode ser fatal, se, os pais não estiverem atentos. O melhor, pois, é prevenir e tornar o lar num espaço seguro. Durante os primeiros três anos de vida, a criança tem um sentido de perigo e de auto preservação muito reduzido, pelo que a sua segurança depende totalmente dos adultos. Até essa idade, a criança não tem noção dos seus limites nem das consequências dos seus actos. E, no entanto, corre muitos riscos inerentes à sua escassa idade. Desde o momento em que começa a gatinhar, todos os objectos alimentam a sua apetência pela descoberta. A casa é o seu mundo, um mundo muito apelativo, cheio de tomadas, panelas, fogões, móveis, janelas e portas. Um mundo, repleto de perigos, mas também, um mundo a descobrir pela curiosidade infantil. Prevenir é então a palavra de ordem, o que, passa por explicar à criança quais os riscos, ensinando-a a proteger-se de situações de perigo. Naturalmente que antes de determinada idade a criança não entende os alertas paternos, dependendo portanto da segurança que os próprios pais lhe proporcionam. Impõe-se, assim, a adopção de gestos simples e fáceis de aplicar, mas que não devem ser negligenciados sob pena de comprometerem a integridade física e mesmo a vida da criança. Vejamos, então, quais os principais riscos que uma criança corre no seu próprio ambiente e de que modo é possível evitá-los: Afogamento - Não deixe a criança só na banheira, pois alguns segundos bastam para que ela se afogue; - Ensine a criança a boiar e a nadar o mais cedo possível; - Nunca a deixe desacompanhada na água da praia, por mais rasa que seja; - Na praia ou na piscina, coloque sempre braçadeiras ou bóias na criança; - Os bebés mais pequenos nunca devem ser deixados sós perto de banheiras, piscinas ou espelhos de água, pois o facto de se movimentarem mal não impede que caiam. Queimaduras - Verifique sempre a temperatura do banho; - Não manuseie líquidos quentes com a criança ao colo; - Mantenha líquidos e alimentos quentes fora do alcance da criança; - Não deixe os cabos das panelas do lado de fora do fogão, pois a criança pode puxá-los e derramar o conteúdo sobre si própria; - Evite deixar a criança sozinha na cozinha, especialmente se estiver a cozinhar, e redobre a atenção sobre o forno; - Atenção à toalha de mesa: a criança pode puxá-la e a loiça e os alimentos podem cair sobre ela, magoando-a; - Mantenha fósforos e cigarros fora do alcance da criança; - Não deixe o ferro de engomar por perto: se estiver quente, pode queimar a criança. Não deixe o fio pendurado, pois a criança pode puxá-lo e o ferro tombar, causando uma fractura; - Cuidado com as lesões solares: evite a exposição ao sol entre as 12 e as 16, aplique sempre protector solar de ecrã total; - Ensine-lhe como lidar com o lume, alertando-a para os perigos.
Queda - Com um bebé, mesmo que seja recém-nascido, o berço é o primeiro local a proteger. Assim, use grades e verifique se o espaço entre cada barra impede que o bebé passe; - Nunca deixe o bebé só no local de trocar a fralda, quer seja a cama dos pais, quer seja um móvel próprio, pois ele pode rolar e cair; - Proteja as janelas com grades ou telas próprias; - Evite móveis perto das janelas, pois a criança pode subi-los e cair; - Coloque barreiras nos acessos às escadas; - Use tapetes anti-derrapantes.
Asfixia - Evite dar alimentos muito duros à criança, pois ela pode engasgar-se, dê-lhe comida em pedaços pequenos; - Evite que a criança brinque com sacos de plástico e com balões; - Cuidado com objectos pequenos, como botões e moedas: a criança pode engoli-los; - Quando o bebé estiver a dormir, retire a corrente da chucha, pois, devido aos movimentos do sono, pode enrolar-se e causar asfixia; - Evite colchões e almofadas muito fofos, pois podem asfixiar a criança; - Pelo menos até aos seis meses, não deixe o bebé dormir de barriga para baixo.
Intoxicação - Coloque medicamentos e produtos de limpeza fora do alcance da criança; - Evite ter em casa insecticidas, venenos e outros produtos químicos, pois a criança pode ingeri-los; - Champôs, cremes e outros cosméticos também não devem estar acessíveis aos mais pequenos; - Se a criança ingerir produtos tóxicos, ligue imediatamente para o Centro Anti-Venenos: 21 795 01 43.
Choque Eléctrico - Coloque protectores nas tomadas; - Desligue aparelhos eléctricos que não estejam a ser utilizados; - Ensine a criança a não mexer nas tomadas, sobretudo com as mãos molhadas; - Cuidado com fios eléctricos soltos.
Objectos Pontiagudos - Proteja os cantos dos móveis; - Guarde facas, tesouras e agulhas longe da criança; - Se usar fraldas de pano, utilize apenas alfinetes com fecho de segurança; - Quando a criança começar a usar tesoura, dê-lhe apenas um modelo com pontas arredondadas.
Estes são os principais riscos que a criança corre em casa e nos ambientes que frequenta habitualmente. Riscos inerentes ao facto de a criança querer manipular tudo o que vê e de, pelo menos até aos cinco, seis anos, não saber avaliar os perigos. Os acidentes domésticos são causa frequente de lesões graves e até irreversíveis, causa de invalidez e mesmo de morte na infância. Sofrimento que é possível evitar tomando precauções. São gestos simples, mas salvam vidas. É como diz o ditado: Mais vale prevenir... Na estrada, todo o cuidado é pouco! De facto assim é. Os acidentes de viação contribuem em boa parte para as estatísticas da mortalidade infantil. Quer os atropelamentos, quer quando são transportadas de carro, muitas vezes no dos próprios pais. É possível prevenir ambos os riscos. Desde logo, ensinando a criança a ser peão, ou seja a andar na rua, ensinando-a que só deve atravessar nas passadeiras, olhando para ambos os lados e sem correr, sempre de mãos dadas com o adulto. Explique-lhe que não deve andar de skate, patins e bicicleta em vias movimentadas, devendo procurar parques e jardins. E mesmo brincadeiras no passeio devem ser vigiadas, pois facilmente uma criança corre atrás de uma bola e atravessa a rua inesperadamente, sem olhar. A segurança passa também pelo carro de família. Desde bebé que deve ser usado um assento próprio. Primeiro, uma cadeirinha, que vai evoluindo com a idade, até ser apenas um banco ligeiramente elevado e que se prende com o cinto de segurança do próprio veículo. Neste caso, a criança deve sentar-se sempre no banco de trás e só na ausência de “air bag” podem ser instaladas no banco da frente as cadeirinhas de recém-nascido. São regras que não devem ser descuradas, por mais curto que seja o trajecto. Até porque as estatísticas mostram que 59% dos casos de acidentes envolvendo passageiros com menos de seis anos ocorrem dentro das localidades, perto de casa, da escola, nas pequenas viagens do dia-a-dia. Armas de fogo: em casa não! Basta ler os jornais e ouvir os noticiários televisivos para nos apercebermos de uma realidade terrível: a de que os acidentes com armas de fogo envolvendo crianças são cada vez mais frequentes, mais comuns do que se poderia pensar atendendo a que o porte de arma está sujeito a regras específicas. Contudo, nos meios rurais é usual a posse de espingardas e caçadeiras, sobretudo por caçadores. Muitas vezes guardadas em lugares a que as crianças têm fácil acesso. A curiosidade infantil faz o resto. E os acidentes acontecem, muitas vezes vitimando um irmão ou um amigo. O risco é grande, pelo que o ideal é não manter qualquer arma de fogo em casa. Mas se não houver alternativa, há que guardar arma e munições em lugares separados e bem trancados. E fazer pedagogia, conversando com as crianças sobre os perigos do uso de armas.
|