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Quarta, 24 Janeiro 2007

:: Crianças: doenças raras

Artigo da revista Farmácia Saúde do número 85 - Outubro 2003

Sabe o que é a síndrome de Cornelia de Lange ou a de Prader-Willi? Provavelmente não, porque estas são patologias raras. Chamam-lhes doenças escondidas porque não se conhecem motivos para o seu desenvolvimento, mas a verdade é que podem afectar qualquer um. Para os pais significam um calvário solitário, entre médicos e hospitais, em busca de respostas.

Imagine uma criança cuja vontade de comer é tão insaciável que, à falta de alimentos propriamente ditos, arranca borbulhas e unhas, ingerindo-as. O mais certo é padecer da síndrome de Prader-Willi, uma das seis a sete mil doenças raras identificadas em todo o mundo.
À falta de explicações científicas que lhes permitam um baptismo próprio, estas doenças acabaram por receber o nome dos médicos e investigadores que as detectaram e estudaram.
Afectam um número residual de pessoas, comparativamente à população em geral. Umas dezenas, quanto muito. Com a União Europeia a definir como rara uma doença que afecte uma em cada dez mil pessoas. Uma verdadeira lotaria que pode calhar a qualquer um. São patologias que constituem uma ameaça para a vida ou determinam uma invalidez crónica, de prevalência tão reduzida que o seu tratamento exige a conjugação de esforços ímpares.
Que o digam as famílias portuguesas com crianças afectadas por uma destas doenças. Porque da sua origem pouco ou nada se sabe, fazem-se testes, exames, traçam-se paralelismos com casos semelhantes, trocam-se experiências e procuram-se respostas em todo o mundo.
É de avanços e recuos que se constrói o caminho destas famílias. Numa procura incessante dos meios de luta disponíveis, uma procura que começa mal é conhecido o diagnóstico. Aliás, chegar a um diagnóstico já pode ser considerado uma conquista, tão escassa é a informação sobre estas patologias. É longo e doloroso o percurso destes pais que buscam respostas para uma situação que raramente é detectada logo à nascença. Um percurso muito solitário, com paragens por muitas especialidades médicas – do pediatra ao cardiologista, do neurologista ao pediatra novamente...
É de entusiasmo o momento do diagnóstico, mas de incerteza o futuro porquanto, mesmo identificada a síndrome, dela não se sabe o suficiente para acalmar a ansiedade dos pais. Muito menos para lhes abrir perspectivas e alimentar expectativas.
Além de longo, este é um caminho que se percorre lentamente e só o tempo permite consolidar conhecimentos e estabelecer estratégias terapêuticas.  Divulgar a informação é, pois, fundamental. Daí a Raríssimas – Associação Nacional de Deficiências Mentais e Raras, o único organismo que em Portugal lida com este tipo de doenças. Nela, os pais de crianças portadoras de doenças raras falam a mesma língua. Ajudam-se mutuamente, aprendem a conviver com um futuro de voltas trocadas.
E essa é também uma das metas do Programa de Acção Comunitário em Matéria de Doenças Raras, que está a ser desenvolvido desde 1999 e termina precisamente no final deste ano. Depois será tempo de avaliar os progressos.
Com esse mesmo objectivo, o de divulgar a existência destas patologias, aqui se resumem as características de algumas delas, das raras as mais comuns, se assim se pode dizer:

Síndrome de Prader-Willi

Descrita pela primeira vez na década de 50, é uma doença congénita e muito complexa, cuja causa conhecida reside numa anomalia no cromossoma 15 herdado do pai. Baixa estatura, obesidade, hipotonia (baixo tónus muscular), pele e cabelos mais claros do que os paternos, mãos e pés pequenos, face achatada, olhos pequenos em forma de amêndoa e órgãos genitais de pequenas dimensões, além de uma deficiência mental ligeira a moderada – assim são as crianças que sofrem desta síndrome.
Alguns destes sinais são identificados logo à nascença. É o caso da hipotonia, na medida em que os bebés são flácidos – não se consegue colocá-los de pé, pois o seu corpo flecte-se imediatamente e a cabeça pende sobre os ombros. Quanto à obesidade, resulta de uma fome incontrolável. É adquirida após o nascimento, porquanto os recém-
-nascidos apresentam um peso normal, sendo que no primeiro ano de vida podem até perder peso, dada a dificuldade de deglutição.
É a partir dos dois anos que o excesso de peso se torna visível, agravando-se progressivamente com consequências que podem ser fatais. Para obter comida, manipulam a família e todos quantos com elas convivem. Podem chegar até à situação extrema de pedirem dinheiro na rua para comprar comida ou de, fracassadas todas as estratégias, se alimentarem das suas próprias borbulhas e unhas.
Controlar o que comem passa a ser prioritário para os pais, o que normalmente conseguem com a ajuda de um nutricionista. Um fisiatra, que elaborará um programa de exercício físico adequado à situação clínica, integra igualmente a equipa médica que acompanha as crianças com síndrome de Prader-Willi. Combater o excesso de peso é fundamental para a sobrevivência, podendo ser necessário recorrer a terapêutica medicamentosa.
Tratamento específico para a doença não existe, tal como não existe qualquer forma de a prevenir.

Síndrome de Angelman

É também provocada por uma alteração no cromossoma 15, mas do materno. Já foi designada síndrome da boneca feliz, porque as crianças com este atraso psicomotor têm verdadeiros ataques de riso. Porém, esta designação acabou por ser abandonada.
É entre os seis e os doze meses que se começam a notar os primeiros atrasos no desenvolvimento em crianças cujo parto foi normal e que, enquanto recém-nascidos, não apresentaram qualquer anomalia. Pelos dois anos a doença atinge o auge, tendo na microcefalia um dos seus sinais mais visíveis. Dificuldades na fala e na compreensão das palavras são outras das características destas crianças, que, no entanto, apreendem bem gestos e imagens. Na postura e nos movimentos notam-se igualmente deficiências, com tremores e marcha cambaleante.
São crianças hiperactivas, facilmente excitáveis e com dificuldades de concentração, o que se evidencia, nomeadamente, através de movimentos repetidos das mãos como bater palmas. É o riso que melhor espelha esta síndrome, com os pequenos doentes a conseguirem rir durante horas. Mas apesar da sua aparência alegre podem exibir comportamentos agressivos, como morder ou beliscar.
Podem passar semanas sem dormir, pelos três anos surgem as convulsões e, apesar do crescimento cronológico, a verdade é que se assemelham a bebés pelo grau de dependência do adulto. Sem quase nenhum uso das palavras, com movimentos descoordenados e desequilibrados são crianças cuja autonomia está muito comprometida.
Todavia, a sua expectativa de vida é igual à da população em geral. Em Portugal estima-se que haja quatro dezenas de famílias afectadas por esta síndrome, para a qual não há tratamento específico. Existem, todavia, tratamentos que permitem diminuir as manifestações da doença e melhorar a qualidade de vida das pessoas afectadas. São tratamentos que ajudam a melhorar as convulsões, a capacidade de comunicar e o comportamento.

Síndrome de Bernard Soulier

É da conjugação de um defeito do pai e da mãe que resulta esta doença hereditária. Em cada um deles esse defeito não tem qualquer expressão, mas num filho pode dar origem à síndrome de Bernard Soulier. Desta conjugação resulta a formação de plaquetas (células fundamentais na coagulação do sangue) gigantes, incapazes de desempenhar eficazmente o seu papel perante uma situação hemorrágica.
Daí que, nos primeiros anos de vida, estes doentes se confrontem com hemorragias exuberantes. Por exemplo, quando rebentam os dentes, quando surge a primeira menstruação ou na primeira fractura, intervenção cirúrgica ou ferida mais profunda. Sangram muito estes doentes. É por isso que, na idade adulta, lhes está vedada a prática de exercício físico intenso, dado o risco de um acidente, e que as mulheres têm de conviver com um fluxo menstrual intenso que chega a durar oito dias.
Foi em 1948 que os médicos Bernard e Soulier descreveram pela primeira vez esta síndrome, que deles recebeu o nome, depois de observarem uma jovem com uma hemorragia grave e prolongada provocada pela diminuição de plaquetas no sangue. Verificaram então que aquelas células apresentavam um tamanho exagerado.
Outra das conclusões a que se chegou entretanto é a de que esta síndrome está sobretudo presente em filhos de casais consaguíneos, em meios fechados onde os familiares acabam por casar entre si. Em Portugal sabe-se que o nível de consanguinidade é relativamente elevado, se comparado com outros países europeus, mas desconhece-se a prevalência da doença. A nível mundial, calcula-se que afecte uma pessoa em cada milhão.

Doença de Fabry

Provocada por uma anomalia genética, calcula-se que esta patologia afecte uma em cada 40 mil pessoas. Quer homens quer mulheres podem ser portadores deste defeito hereditário, presente no cromossoma X, e que se traduz na ausência de uma enzima, a galactosidase alfa. Esta enzima é responsável pela remoção do organismo de uma substância gorda específica, a GL-3, que, na sua ausência, se acumula nas células, alastrando, com o passar do tempo, às paredes dos vasos sanguíneos. Os maiores danos são causados nos sistemas cardiovascular, vascular-cerebral e renal, cujos órgãos podem mesmo deixar de funcionar.
Apesar de presente em ambos os sexos, é nos homens que se sentem mais os efeitos desta doença. Efeitos progressivos, que se acentuam com a idade. Assim, na infância ocorrem crises esporádicas de dor, febre, sensação extrema de formigueiro e calor, intolerância ao frio e ao calor e perturbações da visão. Já na adolescência, a estes sintomas juntam-se a fadiga, perturbações gastrointestinais e erupções avermelhadas na pele do umbigo e joelhos, enquanto os adultos apresentam um quadro agravado com perda de audição e zumbido nos ouvidos, insuficiência renal, complicações neurológicas e disfunções cardíacas.
Sendo rara, a doença de Fabry é naturalmente de difícil diagnóstico. Uma conclusão definitiva só é possível, contudo, recorrendo a uma biópsia e a análises do plasma sanguíneo para detectar a ausência ou deficiência da enzima. A amniocentese permite fazer o diagnóstico pré-natal.
Dado que esta é uma patologia causada pela ausência ou defeito na galactosidase, é na substituição enzimática que assenta a terapêutica, de modo a contrariar a tendência para a acumulação de gordura nas células.

Síndrome de Cornelia de Lange

Foi uma pediatra holandesa que em 1933 descreveu pela primeira vez esta doença, de que se estima existirem cerca de 50 casos no nosso país. Calcula-se que, em todo o mundo, afecte um em cada dez mil nascimentos, não sendo aparentemente hereditária (a probabilidade de passar de pais para filhos não vai além dos dois por cento).
Doença genética, não tem, contudo, num único cromossoma a sua razão de ser, estando ainda longe do fim a investigação em torno da mutação genética responsável pelos seus diferentes graus de gravidade.
Antes do nascimento não é possível detectar sinais da síndrome, os quais só se identificam após o parto. São recém-nascidos pequenos, de baixo peso, com microcefalia e um conjunto de características faciais muito peculiares – sobrancelhas unidas, pestanas longas, nariz pequeno, lábios finos e ligeiramente invertidos, rosto redondo. Também as mãos e os pés são pequenos, com a particularidade de o quinto dedo estar geralmente encurvado. Há crianças que, além disso, apresentam uma membrana entre o segundo e o terceiro dedos dos pés.
A outros níveis, a síndrome de Cornelia de Lange manifesta-se através de um atraso na linguagem, deficiência mental, anomalias cardíacas, intestinais, problemas visuais e auditivos, bem como dificuldades na alimentação. É igualmente possível que os portadores da doença possuam uma sensibilidade táctil muito acentuada e, em contrapartida, sejam quase insensíveis à dor.
A intolerância à lactose é um factor comum aos vários doentes, tal como dificuldade em ingerir e digerir os alimentos, o que abre caminho a problemas do foro gastrointestinal. A nível da visão, são normalmente pessoas míopes, com uma secreção lacrimal abundante e inflamações recorrentes.
Quanto ao atraso na comunicação, é frequente que estas crianças só comecem a falar entre os cinco e os dez anos. Também na esfera comportamental apresentam problemas, sendo frequentemente crianças hiperactivas e com dificuldades de concentração.
Sendo entre seis mil a sete mil as doenças consideradas raras, estes são apenas alguns exemplos. E por poucos que sejam os casos no nosso país, são certamente pessoas que vivem diariamente com a angústia de se saberem portadoras de doenças escondidas, para as quais ainda existem escassos recursos médicos e farmacológicos.

 
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